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Células-tronco desafiam a mídia
por Juliana
Schober
As pesquisas sobre células-tronco não desafiam somente
cientistas e religiosos, mas jornalistas
também. Para as informações sobre esse tipo
de pesquisa chegarem até as pessoas, os
jornalistas precisam decifrar o complicado
linguajar dos cientistas, driblar os
interesses das empresas jornalísticas e
farmacêuticas e tentar transpor a falta de
consenso ético sobre as pesquisas com
células-tronco.
Neste cenário, como veicular notícias sobre hipóteses,
pesquisas e resultados sem grandes
distorções? Este é um grande desafio. Por um
lado, a mídia desempenha um papel importante
na busca da sociedade por uma nova ética e
advertindo sobre a necessidade de normas de
biossegurança que a protejam no futuro. Por
outro, ela deve mostrar as possibilidades
abertas pelas novas tecnologias,
apresentando para a sociedade, de forma
equilibrada, que benefícios concretos a
pesquisa pode trazer.
'Embora o veículo primário para a divulgação de
informações médicas e a discussão de seus
aspectos éticos sejam os journals e
publicações especializadas, a mídia leiga
também tem um papel a desempenhar. É ela que
mais freqüentemente leva a informação à
população em geral. E a discussão bioética
não pode, evidentemente, ficar restrita aos
cientistas. É a sociedade, por meio de suas
instituições políticas, que deve definir se
a clonagem terapêutica, por exemplo, será
aceita' afirma o jornalista e editorialista
do jornal Folha de S. Paulo, Hélio
Schwartzman. 'O cientista precisa, é claro,
ser ouvido, mas a palavra final é da
sociedade. É ela que sofre as conseqüências
(positivas e negativas) de uma nova
tecnologia, droga ou procedimento'.
Cláudio Cohen, professor de bioética da Faculdade de
Medicina da USP e presidente da Comissão de
Bioética do Hospital das Clínicas da USP,
diz que o papel educativo da imprensa
poderia ser melhorado para auxiliar a
sociedade a elaborar e aceitar os novos
conceitos que a ciência proporciona e que
trazem conflitos bioéticos. 'Por exemplo, o
novo conceito de morte (morte encefálica), o
novo conceito de vida (células-tronco,
clonagem), ou ainda a quem pertence a vida -
ao indivíduo, à sociedade ou a Deus - quando
se fala de aborto ou eutanásia. Esses
conceitos são de difícil assimilação e ainda
não existem valores plenamente normatizados
ou universalizados aceitos, eles geram
enormes conflitos entre os filósofos, os
cientista, os religiosos e a sociedade',
afirma Cohen 'A imprensa precisa incentivar
a discussão dos novos limites da vida que a
ciência nos oferece'.
Para ele, a mídia tem cumprido com seu papel
informativo na área de saúde, mas o papel
formativo pode ser melhorado aumentando o
número de jornalistas especializados e
melhorando a comunicação entre jornalistas e
cientistas.
'Na questão das células-tronco a discussão bioética
passa pelo conceito do indivíduo sobre o que
é vida, isso vale também para o que fazer
com os embriões congelados nos casos de
inseminação artificial. A mídia tem se
posicionado favoravelmente, e eu também, a
respeito das pesquisas sobre as
células-tronco. Porém, tem-se falado muito
pouco sobre esse assunto e a sociedade como
um todo ainda não tem uma noção a respeito
do que venha a ser célula- tronco e o
desenvolvimento desse tipo de terapêutica.
Portanto, tem dificuldade de pensar
eticamente sobre esse assunto. É mais fácil
para um cidadão comum ter opinião própria
sobre a guerra ou a pena de morte do que a
respeito das conseqüências para a humanidade
das pesquisas com células-tronco' afirma
Cohen.
Na opinião da jornalista e fundadora do Movimento em
Prol da Vida (Movitae), Andréa Bezerra de
Albuquerque, a divulgação sobre pesquisas
com células-tronco, pela mídia, é falha e
sensacionalista. Em parte, ela
responsabiliza a imprensa pela confusão que
existe entre as clonagens reprodutiva e
terapêutica. Segundo ela, o sensacionalismo
da mídia deixa os cientistas receosos 'Os
cientistas contam com a divulgação, querem a
veiculação, mas sabem que são muitos os
erros que saem na mídia'.
Apesar desses problemas, a paixão recíproca entre os
cientistas e a mídia é bem conhecida e
permeada de interesses. A corrida genética
humana, iniciada na década de 1990, com seus
megaprojetos executados pelos países ricos,
é um bom exemplo da instrumentalização da
mídia. Apesar dos resultados do
seqüenciamento do genoma humano só terem
sido publicados em 2001 pelas revistas
Science e Nature, Bill Clinton e Tony Blair
apressaram-se, em 2000, para divulgar que os
cientistas de seus países conheciam o genoma
humano, portanto, detinham o biopoder.
Enquanto todos os jornais do mundo enchiam
suas páginas com as afirmações de Blair e
Clinton, poucos se dispuseram a esclarecer
os riscos e benefícios desse novo
conhecimento científico, além de não
mostrarem os verdadeiros interesses das
indústrias farmacêuticas desses mesmos
países no desenvolvimento de novas - e, em
geral, pouco acessíveis - biotecnologias.
Para Schwartzman, é difícil controlar esse tipo de
situação. 'O risco de instrumentalização da
mídia existe e não está restrito ao campo da
medicina. Vale para tudo. Mas a busca pela
independência, que já é uma característica
de parte da mídia, tende a contrabalançar um
pouco esse perigo. Se um dos grandes jornais
brasileiros descobrisse que seu repórter
recebe 'por fora' dos laboratórios, não
tenho dúvida de que esse seria um caso - e
justo - de demissão sumária'.
Albuquerque chama a atenção para a manipulação
ideológica de informações científicas
'Quando são citados os grupos religiosos e
toda a polêmica sobre células-tronco, só é
ouvida a igreja católica, que é contra. A
única contra, diga-se de passagem. A Rede
Globo é campeã nisso, nunca fala sobre o
assunto, quando fala coloca um padre para
dizer que é contra. Os judeus são a favor e
nunca são ouvidos, assim como os umbadistas,
espíritas, presbisterianos, budistas etc.'
Ela se queixa da forma leviana com que os meios de
comunicação tratam o assunto clonagem
humana, impedindo que as pessoas tenham
informações corretas sobre o assunto e
saibam diferenciar a clonagem reprodutiva da
terapêutica 'Um fato clássico de
sensacionalismo, que só serviu para
atrapalhar nossa luta, foi o destaque para
os raelianos (veja reportagem). Tudo isso
contribui para um entendimento equivocado
sobre o que é a pesquisa com células-tronco
e todas suas possibilidades'.
Apesar de toda a confusão, é a mídia que pode ajudar a
sociedade a enxergar os potenciais e os
perigos das pesquisas com células-tronco.
Neste contexto, os meios de comunicação não
são apenas instrumentos de divulgação de
conhecimentos e ideologias sobre as novas
biotecnologias, mas um agente de negociação
entre os vários atores envolvidos. Resta à
sociedade manter-se atenta, para que os
economicamente mais fortes não usem os meios
de comunição de acordo com seus interesses. |