Células-tronco
vão superar o uso de medicamentos
06/10/2006
Fonte: A Tarde – BA
Editoria: Entrevista
Cláudio Bandeira
De herói nacional a fraudador. Este foi o
percurso do cientista sul-coreano Hwang
Woo-Suk, que falsificou pesquisa com
células-tronco. Ele foi indiciado por
fraude, desvio de recursos e violação de
leis sobre bioética. Questões relativas à
bioética vêm crescendo em todo o mundo.
Trata-se de um conceito novo, mas que vai
ser levado cada vez mais em consideração
pelos pesquisadores, diz o ex-promotor e
especialista em bioética Eudes Quintino de
Oliveira Júnior. Em entrevista ao jornalista
Cláudio Bandeira, ele afirma que a bioética
exige uma sintonia de pacificação entre os
pesquisadores e destinatários das pesquisas,
no caso nós, o público. Essas pesquisas só
poderão ser colocadas em prática, só poderão
vingar, na medida em que forem
interessantes, compatíveis e coerentes com a
vontade da população. Eudes Oliveira
identifica “uma incompatibilidade” entre a
pesquisa de células-tronco e o interesse da
indústria farmacêutica, pois os tratamentos
com células-tronco prescindem o uso de
medicamentos, já que o paciente usará o
remédio que tem origem nas células. “É
lógico que a indústria farmacêutica vai ter
um sensível prejuízo, pois terá reduzidas –
e muito – as suas vendas.”
A Tarde -Qual o conceito da bioética?
Eudes Oliveira- A bioética nada mais é do que a avaliação correta para que
o homem possa viver bem e utilizar
mecanismos tecnológicos em seu próprio
benefício. A bioética vem crescendo em todo
o mundo. Trata-se de um conceito novo, mas
que vai ser levado cada vez mais em
consideração pelos pesquisadores. A bioética
exige uma sintonia de pacificação entre os
pesquisadores e destinatários das pesquisas,
nós, o público. Essas pesquisas só poderão
ser colocadas em prática, só poderão vingar,
na medida em que forem interessantes,
compatíveis e coerentes com a vontade da
população.
A Tarde-Como a legislação brasileira vê a
questão das células-tronco?
EO- Temos uma legislação que é de março de
2005, a chamada Lei de Biossegurança. É uma
legislação avançada. O Brasil é um país que
até surpreendeu os operadores do direito,
que passaram a contar com essa atualização
da legislação. A legislação brasileira vê
duas espécies de células-tronco: as
células-tronco que chamamos adultas e que
portamos no interior de nosso corpo, e as
células-tronco embrionárias, estas últimas
abordadas no artigo 5º da lei. A lei permite
que elas sejam utilizadas para fins
terapêuticos e de pesquisa, desde que
satisfeitas algumas condições, como a
inseminação in vitro, ou seja, fora do
útero. Em seguida, o material deve estar
congelado por três anos ou mais e, por
último, não seja utilizado. Para que o
material possa ser descartado, há a
necessidade de manifestação dos genitores.
A Tarde- E, para a lei, o que são
considerados genitores nesse caso?
EO Nesse ponto, a lei brasileira nos
surpreendeu, porque quando fala em genitores
está querendo dizer: casal que, em razão da
união efetiva, quis ter um filho e a mulher,
em virtude de alguns problemas, não pôde
concebê-lo, sendo procedida a concepção
utilizando o método in vitro.
A Tarde- Mas há uma ação de
inconstitucionalidade tramitando no
Supremo...
EO- É. No ano passado, foi intentada uma
ação perante o Supremo Tribunal Federal,
chamada ação direta de
inconstitucionalidade. Essa ação visa
declarar inconstitucional o artigo 5º pela
argumentação de que a concepção ocorreu. O
Código Civil fala o seguinte: preserva-se a
vida desde a concepção. Conseqüentemente,
aquele material não pode ser manipulado,
pois é destinado à procriação, e não para
finalidade de terapia ou pesquisa. O grande
entrave na legislação brasileira de
biossegurança é esse artigo quinto, e o
Supremo ainda não julgou. Eu posso adiantar,
a título de curiosidade, pelo que sentimos
nos lobbies que são formados, que a
tendência é que seja declarada a
inconstitucionalidade do artigo 5º,
levando-se em consideração que a própria lei
brasileira prevê que ocorreu a concepção, e,
ocorrendo a concepção, nós temos vida, e a
vida não pode ser utilizada para fins de
terapia ou de pesquisa. Se, de um lado, o
Brasil ganha, de outro, perde. Outros países
evoluídos trabalham e muito em pesquisas com
células-tronco embrionárias. Grandes
descobertas e pesquisas estão sendo
realizadas nessa área. Na contramão, o
presidente dos Estados Unidos, em razão de
uma visão conservadora, fez duas proibições:
primeiro, não homologar a lei que permite
casamento entre homossexuais. Segundo, não
liberar verbas para pesquisas com
células-tronco. Por causa disso, muitos
cientistas saíram dos EUA e se alojaram no
Canadá, e outros foram para Cingapura, hoje
o maior centro mundial em pesquisas com
células-tronco, país que não possui uma
legislação específica.
A Tarde- Essa “terra de ninguém” no sudeste
da Ásia é boa ou ruim para o avanço das
pesquisas?
EO-É ruim. É necessário ter-se uma
normatização de procedimentos e que seja
convencionada em todo o mundo. Por outro
lado, temos de levar em consideração o
padrão do homem mediano e o que pensa a
respeito desse tipo de pesquisa. É
importante enfatizar para o homem mediano
que a pesquisa com células-tronco traz
resultados excelentes para aquelas pessoas
que têm doenças degenerativas, com chances,
até mesmo, de cura. E que não envolve o uso
de células embrionárias, mas sim as
retiradas da medula do próprio indivíduo. O
leigo, contudo, não dispõe desses dados e
vai apresentar, em geral, uma resposta
negativa, pois está mal informado. Há pouco
tempo, apareceu no Fantástico uma reportagem
sobre a venda de células-tronco em pó,
comercializadas por médicos que se
aproveitaram da ingenuidade e até do
desespero de famílias, pois as
células-tronco, hoje, são a bola da vez. Mas
células-tronco em pó? Não existe, nem
poderão existir. As pessoas, infelizmente,
não estão bem preparadas e nós temos,
lógico, várias idéias e opiniões a respeito.
A Tarde - Sobre essa questão da
célula-tronco ser embrionária ou adulta, há
diferenças significativas que levam,
inclusive, a Igreja a condenar as primeiras,
não?
EO- A Igreja é frontalmente contra pesquisas
com células embrionárias. E ela tem que ser
contra. Só que no Brasil, hoje, não estamos
utilizando as células-tronco embrionárias,
estamos utilizando as células-tronco
adultas, que são aquelas que trazemos na
medula óssea. Estamos fazendo, na realidade,
um autotransplante em que se retiram do
indivíduo suas células e as alojamos no
mesmo indivíduo, só que em outro local. O
que tem de errado nisso? Nada. Para a
população, é importante ressaltar que Deus,
além de ser muito sábio, fez uma reserva em
cada um de nós chamada medula óssea e, se
não bastasse essa reserva, Ele colocou uma
outra no cordão umbilical. Quanto mais nos
aprofundamos, mais se constata a existência
de uma imensa sabedoria.
A Tarde- Como coibir os abusos na
manipulação de células-tronco?
EO- No Brasil, as pessoas que lidam com
pesquisas desse tipo são idôneas,
responsáveis, com o mais alto
comprometimento social e médico. Portanto,
duvido que vão se entregar a esse tipo de
comportamento. Não vejo a lógica de se
querer clonar o ser humano se ele não é
infinito. Sua continuidade se dá através de
seus descendentes. No Canadá, mais
precisamente na Universidade de Toronto, um
professor de ética explicou que no lóbulo da
orelha existem células faciais. Se forem
congeladas, daqui há 25 anos será possível
fazer uma inserção regenerativa de células.
O paciente, então, estará com 50 anos, mas
as células estarão com a idade com que foram
retiradas, 25 anos. As células vão trabalhar
de acordo com a idade delas e não com a
idade atual de quem recebeu a inserção. Isso
ressalta a incompatibilidade e o perigo:
dá-se o visual de uma pessoa de 25 a alguém
com 50 anos. Você tem que ter muito cuidado
e cautela.
A Tarde - O lobby da indústria farmacêutica
tem procurado represar os avanços das
pesquisas com células-tronco?
EO -O que se percebe é que existe uma
incompatibilidade. Se tudo vingar e for de
acordo com o planejado, uma intervenção com
células-tronco não vai requerer o uso de
medicamentos, pois o paciente estará usando
o “medicamento” que tem origem nessas
células. É lógico que, por causa disso, a
indústria farmacêutica vai ter um sensível
prejuízo, pois terá reduzido – e muito – as
suas vendas, uma vez que comercializa um
produto chamado remédio. E as células-tronco
oferecem esse remédio guardado no indivíduo.
A Tarde- Como a Justiça está se aparelhando
para interferir devidamente nessas questões
éticas?
EO- A Justiça tem a Lei de Biossegurança
para que possa intervir quando for
solicitada. Não temos muitos casos que
estejam sendo levados à Justiça, porque essa
lei tem pouco mais de um ano e meio de
vigência. Caso a Justiça for chamada a
decidir, ela deverá se pautar pela premissa
da ética e pela própria premissa do direito.
A Justiça está aparelhada, tem condições de
fazer este tipo de julgamento, mas, até
agora, não houve a necessidade de uma
interferência. Quanto à ação de
inconstitucionalidade do artigo 5º da Lei de
Biossegurança, ela é julgada pelo Supremo
que, se julgar pertinente, proibirá a
inserção de células-tronco embrionárias.
A Tarde- De que forma a bioética poderá
influir na evolução dessa nova realidade?
EO- A evolução se dará de acordo com os
modelos ditados pela natureza humana; porém,
haverá um significativo passo nos costumes,
na postura social e filosófica. O uso de
células-tronco é irreversível. Tem todo o
material necessário para ser uma medicina de
sucesso. O caso de uma moça japonesa que
vivia com um inglês foi julgado pela corte
da Inglaterra. Ele se submeteu a uma
cirurgia e, antes, retirou o esperma para
ser congelado. Após a cirurgia, que não foi
bem-sucedida, a moça pleiteou o esperma
alegando que queria utilizá-lo para
inseminação in vitro. Seria um filho
pós-morte. O tribunal indeferiu por duas
razões: primeiro, ele não autorizou.
Segundo, os pais dele, responsáveis pelo
material genético, também não concordaram.
Foi preservada, entende-se, a vontade dele. |